Pedro Gilberto GomesPadre Pedro Gilberto Gomes1 (foto), SJ, Pró-Reitor Acadêmico e pesquisar do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, identifica a ocorrência de um processo de superação da existência individual para o estabelecimento de um corpo coletivo por intermédio da rede comunicacional.

Em entrevista concedida a revista IHU On-Line, o sacerdote afirma que “a tecnologia digital está colocando a humanidade num patamar distinto. Este patamar, muito embora tenha raízes no progresso anterior, representa a constituição de uma nova ambiência social”.

Ao refletir sobre a presença do tema “midiatização” na pesquisa universitária, Pedro Gomes alerta para o fato de que “a visão da academia ainda é setorial, perdendo a dimensão da complexidade, do pensamento sistêmico”. E explica: “Para se dimensionar corretamente a realidade de uma sociedade em midiatização, impõe-se a consideração sistêmica da sociedade. Isso muda substancialmente a produção e reprodução do conhecimento”.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Em outra entrevista que nos concedeu, o senhor considera que está surgindo um novo modo de ser no mundo representado pela midiatização da sociedade. O caracteriza esse “novo modo de ser”?

Pedro Gilberto Gomes – Este novo modo de ser no mundo está relacionado com o fato de que, hoje, as novas gerações já são nativas digitais. Muito mais do que antes, somos seres em comunicação global. Este é um modo de ser em rede comunicacional. Há um processo, pode-se dizer, de superação da existência individual para o estabelecimento de um corpo coletivo. Estamos em vias de construir, no dizer de Joel Rosnay, um super-cérebro planetário. Ou, na linguagem de Teilhard de Chardin, estamos nos aproximando rapidamente a um estágio de evolução pela constituição da noosfera.

IHU On-Line – Por que o senhor considera a midiatização como um salto qualitativo no modo de construir sentido social e pessoal?

Pedro Gilberto Gomes – Ela é um salto qualitativo porque representa um estágio superior do qual não há volta. Assim como a invenção do alfabeto foi um salto qualitativo com respeito à oralidade e a eletricidade com respeito ao vapor, a tecnologia digital está colocando a humanidade num patamar distinto. Este patamar, muito embora tenha raízes no progresso anterior, representa a constituição de uma nova ambiência social.

IHU On-Line – Em que medida a ambiência da midiatização interfere na universidade? Como o senhor avalia que a academia tem lidado com essa questão em relação à produção e à reprodução de conhecimento?

Pedro Gilberto Gomes – Interfere de modo substancial, pois coloca o desafio de sua reinvenção. Isto é, depois de oito séculos, a universidade encontra-se na encruzilhada que lhe coloca diante da escolha: permanecer como está, fazendo modificações periféricas, ou se reinventar para dialogar com o mundo novo que está surgindo. Ou melhor, mundo novo que está se gestando. Muito embora a academia tenha formado as pessoas responsáveis pela construção dessa nova realidade, a midiatização não faz parte do objeto de seu estudo. A explicação pode residir no fato de que, para ela (e para nós), o problema se circunscreve à realidade dos dispositivos tecnológicos de comunicação. A visão da academia ainda é setorial, perdendo a dimensão da complexidade, do pensamento sistêmico. Para se dimensionar corretamente a realidade de uma sociedade em midiatização, impõe-se a consideração sistêmica da sociedade. Isso muda substancialmente a produção e reprodução do conhecimento. Implica em questionar o conceito de produção, de reprodução e de conhecimento.

IHU On-Line – Em que sentido o processo da midiatização nos ajuda a entender a comunicação como manifestação da autoridade?

Pedro Gilberto Gomes – Creio que o problema vai mais além da manifestação da autoridade. Esse é um processo que envolve todo o tecido social. Ele cria uma rede de informação e comunicação, constituindo uma rede de interrelações que aumenta a responsabilidade e inclui toda a sociedade. Existe uma diluição do exercício da autoridade. Talvez se devesse falar de manifestação de autoridade coletiva. É claro que o processo de midiatização pode proporcionar elementos e condições para que haja uma vigilância mais forte por parte daqueles que exercem o poder de polícia na sociedade. Nesse caso, deve-se atentar para a violação da privacidade das pessoas. Entretanto, sou de opinião que o processo de midiatização coloca-nos em outra ambiência social.

IHU On-Line – Quais as expectativas em relação ao Mutirão de Comunicação, que acontece em julho deste ano, em Porto Alegre? Quais os temas que não podem passar despercebidos?

Pedro Gilberto Gomes – O Mutirão de Comunicação irá tratar da comunicação para uma cultura solidária. Logo, a relação entre a comunicação e a construção da solidariedade deve estar na pauta das discussões. No meu modo de ver, o Mutirão deve apontar para essa realidade que está se configurando com a midiatização. Não seria prudente ignorar esse fato e tratar o problema como se fosse uma questão de dispositivos tecnológicos ligados à dimensão econômica e política. Ele não pode ressuscitar problematizações da década de 1970. A realidade avançou e nos sobrepassou.

IHU On-Line – A midiatização nos ajuda a pensar a comunicação em uma cultura de solidariedade?

Pedro Gilberto Gomes – Ela nos coloca condições para pensar uma cultura de solidariedade. Como afirmava McLuhan, vivemos a idade da angústia, onde ninguém mais pode alegar desconhecer os problemas que nos afligem. Nesse sentido, a consciência dos problemas coloca desafios para sua resolução. Interpela cada ser humano para que se engaje na construção de uma sociedade solidária. Sim, existem condições para uma participação maior de toda a sociedade no equacionamento dos problemas que padece.

IHU On-Line – Uma pergunta que o senhor mesmo lançou em uma entrevista que nos concedeu: que sociedade latino-americana está surgindo a partir da midiatização?

Pedro Gilberto Gomes – Essa é a interrogação que nos desafia e nos remete à pergunta sobre os temas do Mutirão. O foco deve ultrapassar a preocupação pelo uso que a sociedade faz ou fará da mídia e dirigir-se para o descobrimento do tipo de sociedade que está surgindo, está se estruturando por causa do processo de midiatização da sociedade. A resposta ainda está em construção. Ou seja, ainda estamos tentando identificar o modo de ser social que daí emerge. Não há uma resposta ainda, pois o processo está no início.

IHU On-Line – Como entender que a midiatização possibilita uma visão unificada da sociedade?

Pedro Gilberto Gomes – A sociedade está vivendo um processo de complexificação cada vez maior, agora com o concurso de uma tecnologia sempre mais sofisticada. Teilhard de Chardin afirmava que tudo o que sobe converge. Há uma convergência em direção de uma maior unidade. O processo de midiatização social está estendendo uma imensa rede sobre o planeta, unificando vidas e compartilhando conhecimentos.

IHU On-Line – E em relação ao cenário religioso, que tipo de religião o senhor acha que está emergindo da mídia?

Pedro Gilberto Gomes – Corremos o risco de desenvolver uma religião individualista, com um consumo a la carte. As pessoas criam laços de participação através do consumo. É uma religião da imagem, dos gestos, com grandes possibilidades de bloquear a introspecção, a dimensão do silêncio e da participação comunitária. Aqui está o paradoxo: unificação social, com o exacerbamento do individualismo religioso.

IHU On-Line – Quais as implicações da midiatização das experiências religiosas no contexto da sociedade plural e diversa em que vivemos?

Pedro Gilberto Gomes – Como afirmei acima, há um paradoxo: individualismo e unidade. Numa sociedade plural, a midiatização favorece o relativismo da experiência religiosa. Cada um constrói a sua vida religiosa a partir do mosaico de todas as religiões às quais tem acesso.
Entretanto, esse fato, longe de nos apavorar, deve desafiar-nos a buscar respostas que preencham o vazio que muitas pessoas possuem em suas vidas.

Veja a entrevista original AQUI

1, Pedro Gilberto Gomes é padre jesuíta, graduado em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), e especialista em Teologia, pela Universidade Católica de Santiago, no Chile. Mestre e doutor em Comunicação, pela Universidade de São Paulo (USP), atualmente é professor e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos.

Andréia Gripp

Jornalista, membro com promessas definitivas na Comunidade de Aliança da Comunidade Shalom. Mestranda de Teologia da PUC-Rio

One thought on “A tecnologia digital está colocando a humanidade num patamar distinto

  1. Nossa, Andréia Gripp!
    O primeiro sentimento que vem é pavor mesmo.
    Rssss

    Mas é a estes a que somos enviados, certo?!

    Percebo esse “religião individualista” diariamente.

    A sensação que eu tenho é que há globalização e cada vez mais real é mais desfigurante. Vamos perdendo valores, princípios… Isso é muito sério.

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