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O Grupo dos Doze

Há na Igreja, ainda, muitas feridas que precisam ser tratadas com carinho e atenção. Deparamo-nos com “muitas igrejas” machucadas, excluídas, mal tratadas, abandonadas, exploradas, que precisam, mais do que nunca da nossa presença de Pão, de amizade, de família e de misericórdia. As nossas “periferias existenciais” [EG, 20] clamam pela nossa participação cristã e nossa presença amorosa em meio às suas condições de esquecimento e de falta de atenção.

Papa Francisco, ao encerrar o Ano Jubilar da Misericórdia afirma que “a misericórdia não se pode reduzir a um parêntese na vida da Igreja, mas constitui a sua própria existência, que torna visível e palpável a verdade profunda do Evangelho” [Misericordia et Misera, 1]. Não é a misericórdia uma atitude compreendida como um cumprir tabela ou obrigação causal. A misericórdia é uma atitude evangélica: está nas Bem-Aventuranças que todo discípulo de Cristo deve seguir; está nas atitudes de Jesus com o cobrador de impostos, com a mulher adúltera, com o samaritano à beira do caminho, com a mulher samaritana… A misericórdia é o Coração do Evangelho, é o Rosto misericordioso do Pai que reflete em nós seu amor.

Em síntese, dizemos que misericórdia não se trata de uma expressão que completa a moda, expressão que está num índice alto do Ibope, da mídia, da internet. Misericórdia é “o seu coração que se inclina, que se dobra a miséria do outro”.

Muito me incomoda a missão dos Doze discípulos, quando são convocados por Jesus a formar a primeira comunidade cristã, ou, como o evangelista Mateus nos coloca, “o núcleo da nova comunidade”. Diz o evangelista, que Jesus convida os discípulos com um propósito: “deu a eles poder para expulsar os espíritos maus, e para curar qualquer tipo de doença e enfermidade” [Mt 10,1]. Hoje, os Doze continuam sendo convidados pela Igreja de Cristo a curar toda doença que atinge nossas famílias, são enviados “primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel” [Mt 10,6]. O Ano da Misericórdia renovou o amor misericordioso do Pai na nossa Igreja. Redescobriu que o fato de sermos um “Povo Escolhido por Sua herança” [cf. 1Pd 2,9], significa que Deus sempre nos ama e, que nossa missão é revelar esse “seu amor que é eterno” [Sl 135] a todos.

Uma experiência marcante que posso descrever aqui é a experiência de uma comunidade paroquial pertencente à arquidiocese de BH: “a comunidade paroquial São Bernardo de Claraval, reunida em assembleia com o seu pároco, convocou, inspirados pela palavra do Evangelho, o Grupo dos Doze, mais tarde chamados de Missionários da Misericórdia. O chamado veio de Deus e, imediatamente, doze leigos se dispuseram a andar, a evangelizar, a ‘proclamar pelos telhados’ [Mt 10, 27b] a misericórdia de Deus. Um grupo bem instruído, preparado, uma verdadeira Pastoral do Evangelho que, a partir de uma missionariedade iluminada pelo Ano Jubilar da Misericórdia ‘curaram os doentes, ressuscitaram os mortos, purificaram os leprosos, expulsaram demônios. Receberam de graça, de graça deram’ [Mt 10, 8]”. Esses missionários reacenderam uma nova Igreja. Uma Nova Paróquia começa a renascer de uma estrutura doente, elitista, de poucos. Condenaram pastorais totalmente defasadas, catequistas e ministros desgastados, cansados, já sem o vigor pleno do evangelho. Agentes de pastorais que já perderam a motivação, a criatividade, a alegria de anunciar a Boa Nova de Cristo. Nossas igrejas adoeceram, nossas lideranças enfrentam hoje um câncer que atrofia as nossas pastorais e matam a fé de nossa gente. Falta o encontro pessoal com Jesus Cristo.

Enfrentamos uma forte crise do compromisso comunitário. Deparamo-nos com pessoas que buscam cargos de status que proporcionem a eles uma realização pessoal. A paróquia é comparada a um consultório psicológico onde seus problemas ocupam o primeiro lugar e, a evangelização do povo já não é mais o foco. Encontramos os famosos “agentes da vaidade pastoral”, onde buscam apenas a fama, o sucesso, a mídia, etc… Enfim, é preciso buscar no Coração do evangelho a conversão pessoal e que, “não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário!” [EG, 80], “não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização!” [EG, 83], “não deixemos que nos roubem a esperança!” [EG, 86], “não deixemos que nos roubem a comunidade!” [EG, 92], “não deixemos que nos roubem o Evangelho!” [EG, 97], “não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!” [EG, 101].

É urgente, tomar atitudes de “igrejas em saída”. Urgente é assumir nossa responsabilidade, nossa missão. “Existe um povo numeroso que nos pertence” [Atos 18,10b]. Urgente deve ser a nossa atitude, como Discípulo Missionário de Jesus Cristo, batizados em nome da Trindade Santa, assumir verdadeiramente o Evangelho e sair e anunciar.

“A missão é a partir de Jesus Cristo” [DGAE, 1]. E d’Ele sempre devemos partir. É Jesus nossa Luz maior. É Jesus o nosso líder. É Ele misericórdia.

Voltando à experiência da comunidade paroquial. Aqueles missionários enfrentaram a missão de bater de porta em porta percorrendo toda a extensão geográfica do lugar. Independentes do credo, da religião, da opção de vida, foram anunciar a Misericórdia do Pai a todos, pois Jesus veio para todos. Somos irmãos. Que o Grupo dos Doze de Jesus continue incomodando e motivando outros doze hoje em dia para que novos discípulos possam surgir e renovar nossas paróquias. “Ser Igreja significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projeto de amor do Pai. Isto implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade; quer dizer anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, dêem esperança e novo vigor para o caminho. A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho” [EG, 114].

 

Dione Afonso  |  Belo Horizonte